O IMPÉRIO DA CIÊNCIA!
Em 1880, o filósofo Nietzsche revolucionou os valores do homem quando seu personagem, um louco, entra numa cidade anunciando: “Deus está morto“. O avanço da ciência, naquela época, tinha colocado o mundo sob novo comando. A realidade aristotélica e cristã, onde tudo tem um propósito, e Deus é a origem e o fim, haviam desmoronado. O homem matou Deus. O personagem perguntava às pessoas se não se sentiam perdidas já que tudo girava solto, sem sustentação, sem direção!
Sem Deus, o ser humano tinha agora toda a responsabilidade sobre si mesmo. A ideia de que há uma razão de ser, quer com base na metafísica ou na vontade divina, esvaziou-se. A vida tornou-se apenas uma repetição dos fatos ! Nada existe com um fim ou um propósito, como sugerido por Aristóteles. O mundo se encerra em si mesmo e não sob os cuidados de uma entidade acima do universo. A vida e a natureza são nada mais que a eterna renovação de si mesmas. Diante dessa “eterna recorrência”, cabe ao homem aceitá-la, e buscar dentro de si mesmo a melhor forma de se superar.
Nietzsche concluiu que o homem cria valores com base em si mesmo. Coloca-se como centro e como única medida de sua trajetória nesta existência.
Não contar com a premiação eterna, e entender que a vida é apenas a renovação do mesmo, não era tarefa fácil para muitos, pois através de milhares de anos, acreditava-se que os sofrimentos desta vida teriam sua recompensa na eternidade.
No entanto, Nietzsche observou, que não obstante a morte de Deus, o homem continuava lutando e conquistando a cada dia novas vitórias. Percebeu que cada pessoa traz um “super-homem” dentro de si, capaz de se superar, que cria e escolhe valores para se conduzir na vida terrena. Eles fazem a humanidade evoluir enquanto os os preceitos vindos do céu a enfraquecem. O destino do ser humano está em suas próprias mãos, em seus desejos. Por essa razão, ele negou o valor da democracia e do cristianismo. A ideia de igualdade é irreal. O ser humano só consegue se equilibrar quando conquista sonhos; quando se auto desenvolve. Quando realiza seu “desejo de poder”! Qualquer tentativa de colocar todos na vala comum do mesmismo o transforma em escravo. Tudo o que promove o conformismo e a resignação a uma vontade superior é negativo porque destrói o super-homem dentro de cada um. No passado, ao se ligar ao céu e desligar-se da terra, o homem abandonara valores terrestres e se manteve estagnado na mediocridade. O princípio da igualdade não estimula o auto aperfeiçoamento. O assistencialismo e o determinismo filosófico não premiam o mérito. Nietzsche não reconheceu que a humildade, a cooperação e a solidariedade, entre as pessoas, podem também ser princípios que engrandecem o ser humano. Ao contrário, procurou enfatizar o auto desenvolvimento e o espírito competitivo como valores morais acima dos demais: “toda moralidade é resultado da racionalização do medo; moralidade é um conjunto de instruções de como viver em paz com os aspectos mais perigosos que o homem tem dentro de si”. Em outras palavras, moralidade significa agir segundo o “desejo de poder”, sem medo, e conservando o bem-estar.
A “morte de Deus”, o “desejo de poder” e o "super-homem” resumem a condição humana de Nietzsche. As dificuldades, sob o ponto de vista ético, são evidentes porque o ser humano não é um ser isolado. Ainda que a superação e o auto desenvolvimento sejam virtudes, sua prática se exerce na coletividade, na vida social. Ignorar o próximo é impossível. Sua ética é essencialmente individualista. O super-homem”, enquanto protagonista da superação, pode ser uma resposta ao vazio causado pela vida, traduzida em simples repetição de si mesma, mas as ações humanas também são sem sentido, se desprovidas do reconhecimento pelo próximo. Assim a obra de Nietzsche é um desafio quanto à ética e à moralidade. Sua visão da condição humana está longe de reconhecer o que é bom para a maioria, como define o Utilitarismo, e distante da opção pelo certo, defendida pelos deontologistas. A felicidade para a maioria e a aplicação da justiça, como princípios éticos, foram substituídos pela necessidade da humanidade se desenvolver e de se repetir a cada novo ciclo da recorrência da vida!
Como manter o “desejo de poder” e ao mesmo tempo manter a coesão social? Ou sacrificar-se pelos outros? E renunciar a direitos pelos direitos dos outros? Certamente não é justo condenar Nietzsche por acreditar no “super-homem” e no “desejo de poder” como resposta à morte de Deus. De fato, o homem a cada dia menos reconhece a existência de um ser supremo, e continua empenhado pela vida! A questão se situa no campo ético. Deveria ser a sociedade um ambiente onde cada indivíduo tem total liberdade para desenvolver seu potencial? Ou lhe caberia apenas ser parte de um padrão social, cujos valores são os mesmos para todos?
Ambas as perspectivas, a realização pessoal e a solidariedade social, são necessárias. Nenhuma é válida sem a outra. A manutenção desse equilíbrio sempre esteve no centro do debate político. Em um sistema ético, o contrato social permitiria o desenvolvimento de cada um. E este deveria levar a sociedade a um alto grau de solidariedade. Quando o interesse próprio prevalece a anarquia se estabelece. Quando o homem perde seu espaço em função de valores coletivos o autoritarismo se impõe.
Nietzsche anunciou que o império da ciência tinha tomado o lugar de Deus! Hoje a ditadura científica é uma ameaça que pode vir a se impor tal qual uma nova religião. O “super-homem” está perdendo seu poder para processos e tecnologias, criados por ele mesmo, com o risco de assim tornar-se vítima de sua própria criação.

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