NA NATUREZA NADA PODE CRESCER INDEFINIDAMENTE
NA NATUREZA NADA PODE CRESCER INDEFINIDAMENTE!
Autor: Geraldo Henrique de Matos - Colaborador The SapienSpin
Teorias éticas baseiam-se na ideia de um contrato entre as pessoas com o fim de estabelecer o que deve ser um tratamento justo entre todos, ou bom para a maioria. Cada pessoa aceita obrigações e deveres e recebe alguns direitos em contrapartida. No entanto, o ser humano não é a única espécie no planeta. Nesse caso, não caberia também incluir na questão ética, o compromisso do ser humano com os animais?
Certamente, o tema do direito dos animais não implica em seu comportamento moral. A moralidade entre eles não existe. Um gato, quando diante da possibilidade de matar um rato, age instintivamente. Mas o homem pode sim escolher que tipo de comportamento assumir diante de um animal.
Cabe entender se os seres humanos têm o dever moral de respeitar os animais e de lhes atribuir direitos, já que essa é uma prerrogativa exclusiva dos humanos.
Manter animais presos em jaulas, em zoológicos, não feriria seu direito de viver livre em seu próprio habitat? Possuir um animal de estimação não seria uma violência contra seu estado natural? Qual seria a implicação de estimular a multiplicação de certas espécies pelo simples prazer estético que oferecem ao homem?
O animal de estimação é aceito pela sociedade pelo benefício que traz aos humanos. Um cachorro ou um gato pode ser uma boa companhia para pessoas que vivem só. A presença dos animais dentro de casa pode oferecer um ambiente de maior afetividade. Até mesmo um relacionamento se estabelece entre o ser humano e o animal, que acabam trocando gestos e expressões de carinho entre si. As vantagens sob a perspectiva do ser humano são tangíveis. No entanto, como avaliar se o animal se beneficia de tudo isso ou se estaria melhor em seu próprio mundo? Vale à pena a um pássaro, ter água, comida, sombra se vive lacrado numa gaiola (ainda que seja de ouro!), e mesmo que cuidados extras lhe permitam uma longevidade acima da média?
Afirmar que os humanos não têm nenhum direito de fazer qualquer tipo de contrato unilateral com animais é inequívoco. Na visão islâmica, animais não devem ser mantidos em casa e muito menos em zoológicos. O argumento é de que tais práticas não são naturais, pois violam sua vida instintiva. A lei natural exige que os animais tenham um lugar que seja próprio à sua natureza. Respeitar o animal exige que seja tratado como tal, e não transformado em quase um “quase-humano”.
Na vida selvagem, os animais se alimentam um do outro. Os humanos, por outro lado, são onívoros, têm a opção de serem carnívoros ou vegetarianos. A lei natural aceita que o homem pode se alimentar de carne e para isso pode criar animais com o fim de produzir alimento. Mas se a alimentação carnívora é fator de sustentação da vida, o que dizer das condições com que os animais para o abate são criados e mantidos? Na lei da selva, eles não têm nenhum controle sobre o que comem, alimentam-se do que encontram. Já o ser humano controla a produção de animais para alimento. Deveria este controle implicar em algum tipo de obrigação moral?
Tudo começa com os hábitos e com a dieta seguida pelo homem. Se uma carne fresca é degustada ocasionalmente, como um prato raro, as condições de criação do animal seriam mais brandas e naturais. No entanto, quando se espera o consumo diário de carne, por toda a população, gera-se uma demanda cujo suprimento só se torna possível pela criação de animais, de forma artificial, que nega sua natureza. Como avaliar a relação ética? Se o que vale é o interesse humano, o direito do animal, como uma espécie, desaparece; ele passa a ser apenas mera fonte de proteína.
Em 2017, o mercado mantinha um estoque de 23 bilhões de frangos para o abate. Hoje esse número chega a 50 bilhões. Todos violentados em sua natureza. Se de um lado, isso melhora o combate à fome entre os humanos, por outro a violência contra animais é brutal. A criação de gado, além da afronta às leis naturais, em sua preparação para o corte, ainda traz como consequência problemas climáticos e de desmatamento. Tudo isso causado pelo efeito devastador do crescimento da população humana. Entre o ano 1000 DC e 1500 DC, a população mundial passou de 275 a 458 milhões. Um aumento de 67%. No entanto, nos últimos 500 anos a expansão demográfica chegou a 8 bilhões de pessoas. Nada na natureza pode crescer indefinidamente!
A necessidade de alimentar quase 8 bilhões de humanos, transformou o planeta numa carnificina. Em que pese a luta de alguns ativistas contra o maltrato dos animais, conceder direitos é um fenômeno exclusivamente humano. Os animais mal se protegem instintivamente, pela autodefesa e pela seleção natural. Para aqueles que se preocupam com o bem-estar dos animais, sua luta consegue pouco. Livrar alguns poucos de maus tratos é tudo que vem sendo possível. Apenas os que possuem “pets” mantêm alguma compaixão, fruto da empatia, pois dependem de sua companhia.
O filósofo René Descartes descartou o sofrimento animal, ao alegar que eles não têm consciência de si mesmos: “o choro de dor de um animal é como se fosse o ranger de uma máquina”. Para ele, trata-se de reação apenas instintiva, não há lágrimas! Sua mente não lhes permite lembrar da dor. Ainda hoje a ciência não sabe explicar se realmente o animal sente dor tal como os humanos a sentem. Immanuel Kant assim se expressou: “em relação aos animais, os seres humanos não têm nenhum dever ou responsabilidade. Animais não têm consciência de si mesmos, assim são apenas meios para um fim. E este fim é definido pelo homem.”
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